Bebê morre na creche e mãe questiona: “Por que temos que deixá-los tão cedo?”

Por: Bruna Romanini

Foto: Getty Images

“Uma mãe nunca deveria não ter escolha a não ser deixar seu filho de poucos meses sob o cuidado de estranhos”, disse a mãe

Amber Scorah perdeu o filho Karl aos três meses de idade. O pequeno faleceu no seu primeiro dia na creche e agora Amber luta para que a licença-maternidade dure mais tempo em uma campanha que você conhece aqui. Veja o emocionante depoimento dela sobre a perda do filho e sua opinião sobre a extensão da licença-maternidade, a seguir:

Como na maioria das manhãs dos seus 117 dias de vida, a primeira coisa que Karl fez naquela segunda-feira em julho foi me dar um sorriso tão radiante quanto a luz do Sol.  Ele deitou na cama por um tempo, entre seu pai e eu, olhando para um de nós e depois para o outro. Esta manhã que começou igual a todas as outras seria diferente: era o primeiro dia da mamãe de volta ao trabalho.

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Tive três meses de licença-maternidade e estava desconfortável com a ideia de deixar o meu filho. Queria cuidar dele exclusivamente por mais tempo, até que ele ficasse maiorzinho. Eu vi como era valioso nosso tempo junto nesta primeira infância, como ficar comigo neste tempo fez com que ele se sentisse mais seguro para conhecer este novo mundo fora da barriga. Eu notei como ele olhava para mim para aprender coisas e ter conhecimento deste mundo. Eu pude ver como ele se sentiu seguro comigo. Cada minuto com o Karl pareceu um investimento em seu bem-estar atual e futuro. Sem contar que era extremamente agradável ficar com ele.

Quando minha licença-maternidade se aproximou do fim, eu pedi para a empresa que trabalhava mais tempo, mesmo que fosse sem pagamento. O departamento de RH me disse que não havia legislação que permitisse estender a licença-maternidade. Não havia nada que a empresa pudesse fazer. A única opção que tinha era me demitir.

Eu considerei esta opção. Fiz as contas com meu marido, mas não tínhamos condições financeiras para isso. Eu também tinha muito medo de deixar o emprego e não conseguir uma recolocação. Também não era possível que meu marido se demitisse, pois ganho menos que ele e seria ainda mais impossível sustentar a família apenas com meu salário.

Então, fizemos o melhor que pudermos: após muitas pesquisas, entrevistas, listas de espera, encontramos uma creche perto do meu trabalho. Com esta creche, eu ainda poderia ir na hora do almoço amamentar Karl e visita-lo com certa frequência para que não ficássemos separados por mais de algumas horas. A creche que escolhi havia sido recomendada por muitas mães. Pareceu um lugar amoroso e seguro para meu filho.

Tentava me sentir melhor com uma série de justificativas: “Ele é filho único, vai ser bom conviver com outras crianças”. “Ele vai gostar de brincar com outras crianças”. “Tem crianças que estão lá desde as 6 semanas de vida e estão bem”. Mas nada fazia com que me sentisse melhor.

Naquela segunda-feira, meu marido entreve Karl enquanto eu tomava banho e organizava as coisas para levar até a creche. Arrumei todas as coisas dele e eu, meu marido e Karl fomos até o metrô.

Chegamos na creche às 09:30. A assistente da creche veio até nós com os braços abertos e disse “oi”. Karl estudou o rosto dela e abriu um grande sorriso. A dona da creche contou uma piada, que provavelmente é contada a todos os pais de primeira viagem que vão deixar seus bebês pela primeira vez: “A pior coisa que pode acontecer é ele ser atingido por um caminhão de bombeiro de brinquedo – já que uma vez um bebê bateu em outro com um caminhão de brinquedo.

Eu voltei para a creche às 12:15 para amamentar meu filho. Eu estava muito animada para vê-lo. Corri os dois quarteirões que separam a creche da empresa. Quando eu peguei a escada para chegar na creche, eu notei que a porta da creche estava aberta. Achei estranho, pois havia uma série de bebês ali. Eu passei pela porta, esperando encontrar meu filho, ver seu rosto se iluminar com a chegada da mamãe.

Porém, eu vi meu filho inconsciente, espalhado em um trocador. Seus lábios e a região ao redor de sua boca estavam azul e a dona da creche tentava reanima-lo, da forma incorreta. Meu doce filho morreu duas horas e meia após eu deixá-lo pela primeira vez.

Karl teria morrido se ele tivesse ficado comigo naquela manhã? A conclusão dos médicos foi: indeterminado.

O que é determinado é que às 11:50 a assistente da creche viu meu bebê chutando e chamou a atenção da dona da creche. A dona da creche disse que não era necessário ver qual era o problema. “Bebês chutam enquanto dormem, isso é normal”, ela disse. 22 minutos depois meu bebê morreu. Se a assistente da creche tivesse ido lá e visto meu filho, ele ainda estaria vivo? Eu não sei. A assistente da creche também colocou Karl para dormir de lado, sabe-se que não é a posição segura. Se ele tivesse sido colocado pra dormir com a barriga pra cima, ele ainda estaria vivo? Eu não sei.

Eu terei que viver com essas questões o resto da minha vida.

O que eu sei é que se EU tivesse ficado com meu filho de três meses, eu teria ido checar se ele estava bem na hora em que chutou. O que eu também sei é que meu filho teria sido colocado para dormir com a barriga para cima.

Apesar destas questões que eu sei que nunca terei resposta, a questão que eu faço agora é: Os pais deveriam ser obrigados a brincar de roleta-russa com seus filhos? Os pais deveriam ser obrigados, após terem feito tudo que podiam para manter seus filhos seguros, a confiar seus pequenos a uma assistente de creche?

Meu bebê morreu sob o cuidado de estranhos, quando ele deveria estar comigo! Uma mãe nunca deveria não ter escolha a não ser deixar seu filho de poucos meses sob o cuidado de estranhos, especialmente se isto não parece certo para ela. E eu sei que milhões de mães tem que fazer isso, mesmo que isso as torture emocionalmente ou fisicamente.

Claro que se eu soubesse que se tivesse deixado o Karl na creche isso resultaria na morte dele, eu teria sacrificado tudo. Teria desistido do meu trabalho. Eu cataria reciclados na rua com ele no meu colo se fosse necessário, faria qualquer coisa para que ele ficasse comigo. Mas, apesar de ser uma mãe ansiosa, nunca havia sequer passado pela minha cabeça a possibilidade de que meu filho morreria na creche. E não é para mesmo, morte súbita é algo muito raro entre bebês.

Mas agora eu pergunto: Por que tantos pais têm que sacrificar seus empregos, até mesmo o alimento que colocam na mesa, para poder ficar só mais alguns meses com seus bebês?

Eu não estou apenas contra o sistema de licença-maternidade atual. Eu estou contra toda a cultura atual que coloca muito pouco valor sobre como cuidar de bebês e crianças pequenas. A licença-maternidade que dura um tempo maior previne a mortalidade infantil, faz com que as crianças se tornem adultos mais saudáveis e ajuda as mulheres a permanecerem no mercado de trabalho.

Se as mulheres e as famílias fossem valorizadas, as coisas seriam diferentes: as mães poderiam voltar ao trabalho após se recuperarem fisicamente e emocionalmente e o vínculo com os filhos não seria afetado.  Existem uma série de países que fazem isso com sucesso. Nossos filhos merecem mais e nós pais temos que conseguir isso.

*Com informações do NY Times.

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