Contos de fadas que não merecem ser contados

Por: Iza Garcia

Iza Garcia é a mãe da Bruna e uma das autoras do blog RoteiroBaby.com.br. Neste texto ela escreve sobre os contos fadas. Iza optou por não contar algumas histórias clássicas para sua filha e explica o que a levou a decisão.  Confira e reflita você também 😉

Muitos pais (oi!) se perguntam se devem ou não apresentar todos os contos de fadas para seus filhos. Preocupados com as eventuais passagens cruéis de alguns contos e a possibilidade delas perturbarem a inocência da criança, os pais, muitas vezes, evitam alguns contos ou contam as histórias em versões não originais.

Professores, psicólogos e outros profissionais defendem a importância dos contos de fadas na vida das crianças e afirmam que “uma boa narrativa comove ativamente a alma, dá asas aos sentimentos, ativa uma sã vontade e estimula a mente”.

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Para os pais preocupados com essa questão, os especialistas dizem que as emoções provocadas pelos contos de fadas não fazem mal às crianças, desde que a narrativa se constitua, claramente, de causa e efeito, prevalecendo, no final, o sentido de justiça tão almejado pela criança que quer ver o mal sendo castigado e o bem recompensado. Dizem ser importante fortalecer, na criança, sua confiança no trunfo da bondade, e que os contos de fadas garantem às crianças que as dificuldades podem ser vencidas, as florestas atravessadas, os caminhos de espinhos desbravados e os perigos mudados, por mais pequeno e insignificante que seja quem pretende vencer.

Nos clássicos contos de fada (dos Irmãos Grimm) há uma lei impecável: “a recompensa do bem e o castigo do mal”, lei que forma a base na alma infantil e fortalece a importante faculdade de discernir entre o bem e o mal.

Por estas razões, dizem que não devemos evitar nenhum dos contos de fadas tradicionais. Gradualmente, sugerem que os pais contem os contos colecionados pelos Irmãos Grimm e Bechstein, sem adaptar, abreviar ou trocar nada por algo que nos pareça melhor. Dizem que devemos começar com os contos simples e logo mais tarde, mais ou menos aos cinco anos, continuar com alguns mais complicados, cheios de interessantes e emocionantes acontecimentos. Dizem ainda que “nunca” devemos explicar à criança o sentido dos contos de fadas e que a compreensão da mensagem final por parte do narrador é importante para o espírito pré-consciente da criança.

Até aqui, logicamente convencida da importância dos contos de fadas, apresentei histórias da minha infância para a minha filha, com nostalgia e emoção. Apresentei a maioria dos contos para a minha filha, comprei versões adaptadas para bebês e crianças pequenas e tal…

No entanto, alguns contos me deixam muito intrigada e, seguindo aqueles instintos maternais que nos movem mas que nem sempre podem ser traduzidos em palavras evito, sim, alguns contos e não gostaria de apresentá-los à Bruna, mesmo mais adiante.

Acredito que o adulto precisa ser sensível ao selecionar as histórias mais adequadas ao estado de desenvolvimento da criança e para as dificuldades psicológicas específicas que a confrontam naquele momento. E acredito SIM que algumas histórias precisam ser evitadas porque, na minha opinião, não trazem nenhuma lição positiva e, do contrário, podem sim perturbar a cabecinha ainda ingênua da minha criança.

Não se trata do Lobo Mau, por exemplo. Eu entendo que em algumas histórias ele precisa “ser mau”. Não se trata de evitar que o Patinho Feio ou o Dumbo sejam vítimas de bullying (risos)… Eu leio essas histórias em suas versões originais, gosto delas e acredito na importância e no ensinamento delas. Não se trata, de forma alguma, de querer que absolutamente toda história infantil seja politicamente correta.

Citarei cinco histórias clássicas que passaram a ser evitadas (ou adaptadas por mim), para exemplificar este post:  

JOÃO E MARIA 

Eu não entendo como pode ser positivo contar a uma criança a história de uma madrasta má que convence o pai a abandonar os filhos na floresta porque não gosta deles. Não entendo como o medo e a insegurança de uma criança, fatalmente provocados por essa história, podem ser educativos.

Não gosto de falar da bruxa que “come criancinhas”, nem da casa toda feita de doces. Detesto essa história do começo ao fim. Também não gosto de histórias que provocam “medo de madrastas” porque não acho isso educativo. Acredito que hoje em dia, quando crianças convivem cada vez mais com madrastas, suas ou dos amiguinhos, provocar medo sobre essas pessoas e apresentá-las como vilãs não seja inteligente.

O PEQUENO POLEGAR

Eu não entendo como pode ser positivo contar a uma criança a história de uma família que abandona o filho na floresta porque não tem dinheiro para comprar comida. Não entendo como a insegurança de uma criança sobre a possibilidade de perder o amor dos pais, certamente provocada por essa história, pode ser positiva.

O GATO DE BOTAS 

Um gato que mente a história inteira para convencer o rei que seu dono é rico e conseguir que este ofereça a mão de sua filha em casamento ao dono só porque o noivo em questão é supostamente rico.

Eu já detestaria essa história porque o objetivo dela é fazer alguém casar no final (acho essa preocupação tão desnecessária para o universo das crianças) e não entendo como pode ser positivo contar a uma criança a história de alguém “espertalhão” que mente o tempo todo para convencer os outros que seu dono é rico. Não gosto de ensinar que alguém que mente conseguiu o que quis e se deu bem, nem que “ser rico” é uma qualidade que precisa ser tão valorizada.

É claro que eu sei que esse conto infantil de Perrault envolve uma crítica social à nobreza e questões de moralidade, por ter sido escrito em 1697, num momento de França Absolutista. No entanto, eu realmente acho mais fácil evitar a história do que explicar esse contexto todo a uma criança tão pequena.

A PEQUENA SEREIA

Vocês sabiam que na clássica história A Pequena Sereia, do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), a protagonista morre ao final, cometendo suicídio ao se jogar no mar e virando espuma?! Sim! Su-i-cí-di-o! E por motivo torpe (risos), já que ela o faz simplesmente porque o seu amado príncipe resolve se casar com outra mulher.

Sinceramente? Eu não consigo concordar com quem diz que uma história dessas deve ser contada para as crianças simplesmente porque é um clássico do famoso Andersen… ou que um espetáculo que se baseie no roteiro original deste conto mereça classificação indicativa livre.

Falam tão mal da Disney, que supostamente “açucara” os contos tradicionais, mas e esse conto?! O que seria dele sem a versão Disney?! Alguém tem mesmo coragem de contar para uma criança, ainda que mais velha um pouquinho, a história da garota que se mata porque o namorado arrumou outra?! Eu, definitivamente não!

BAMBI

Eu, sinceramente, engasgo quando tenho que dizer que a mãe do Bambi morre em certa parte da história. E quem quiser me achar boba, que ache… existem outras histórias com florestas, animais, aventuras e tudo que há de positivo na história do Bambi, sem essa passagem trágica e desnecessária no universo da maioria das crianças pequenas que eu conheço.

E vocês? Qual a opinião de vocês sobre ESSES contos citados? Lembraram de algum outro conto de fadas “bizarro” que eu esqueci de comentar?

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