Mil dias do bebê: importância e o que acontece

Por: Bruna Romanini

Foto: Getty Images

Saiba quais os cuidados necessários, o que acontece e por que os mil dias do bebê são tão essenciais para a vida adulta

Os primeiros mil dias do bebê, que consistem nos cerca de 270 dias de gestação e nos 730 dias de vida, cerca de dois anos de idade, são essenciais para o futuro do pequeno. “A maior parte do desenvolvimento do cérebro acontece antes que a criança atinja três anos de idade. Em um curto período de 36 meses, as crianças desenvolvem suas habilidades de pensar e falar, aprender e raciocinar, e lançam os alicerces para seus valores e comportamentos sociais quando adultos. Nessa fase, prevenir doenças, estimular o sistema neuro psicomotor e monitorar o sistema imunológico pode garantir uma boa saúde na vida adulta”, observa o pediatra Jose Gabel, secretário do Departamento de Pediatria Ambulatorial e Cuidados Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

A seguir, listamos as atitudes dos pais nos primeiros mil dias do bebê que vão ajudar a garantir uma vida adulta saudável ao pequeno e também explicamos as principais mudanças que ocorrem nesta fase:

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Na gravidez

Alimentação na gravidez

A nutrição equilibrada e balanceada com a ingestão de proteínas, sais minerais, vitaminas e alimentos ricos em ácido fólico previne a má-formação do tubo neural do bebê. Já alimentos ricos em ácidos graxos ômega-3 favorecem o desenvolvimento do cérebro e sistema nervoso. “A alimentação ingerida pela gestante contribui e influencia o paladar e o olfato do bebê”, diz Jose Gabel.

Diversas pesquisas, entre elas uma publicada na revista científica Maternal & Child Nutrition, descobriram que se alimentar de forma errada favorece o ganho de peso na gravidez e consequentemente a obesidade infantil. Isto porque os filhos de mulheres que engordaram muito na gestação apresentaram três vezes mais chances de desenvolver obesidade infantil do que os filhos de mães que tiveram uma dieta saudável. Confira um cardápio saudável para a gestante aqui.

Vacinação na gravidez

É essencial que a gestante tome três vacinas. “Vacinar as gestantes é importante para que anticorpos maternos sejam transmitidos ao bebê”, destaca Jose Gabel.

As vacinas que a gestante precisa tomar são:

Vacina contra a gripe

Além de proteger a mulher do vírus da gripe normal, esta vacina também evita suas formas mais agressivas.

Tríplice Bacteriana (dTpa-Difteria, Tétano e Coqueluche):

Ela protege contra a coqueluche, tétano e difteria. “O aumento do número de casos de coqueluche na comunidade, em recém-nascidos e lactentes antes de 1 ano de idade podem causar complicações graves e altas taxas de morte”, alerta Jose Gabel.

Hepatite B:

A vacina deve ser administrada em 3 doses, preferencialmente a partir do segundo trimestre da gestação. Se a gestante já foi vacinada anteriormente, não há necessidade de reforço.

Gravidez planejada

É importante planejar a gestação. “Tem que ter apoio e preparo físico e psicológico, o planejamento reprodutivo carrega consigo benefícios sociais, além de melhor qualidade de vida e expectativa de um futuro melhor, reduzindo assim as complicações de uma gravidez não planejada”, diz Jose Gabel.

Enquanto a mulher se prepara para engravidar, é importante que ela pratique atividades físicas, se alimente de forma saudável e consuma o suplemento de ácido fólico. Também é interessante checar como estão os níveis de vitamina D no corpo. Tanto o pai quanto a mãe devem realizar uma série de exames antes de tentar engravidar, você pode ver quais são aqui.

A importância do parto

O parto influencia e muito a vida do bebê. É essencial tentar o parto normal. Bebês que nascem de parto normal possuem uma melhor flora bacteriana, pois entraram em contato com as bactérias do bem presentes na vagina. Assim, eles terão melhor digestão e algumas pesquisas apontam que até mesmo o risco de obesidade infantil diminui. “No parto normal, o bebê sinaliza a hora do seu nascimento, avisando quando já está maduro, pronto para vir ao mundo”, destaca Jose Gabel. Veja outros benefícios do parto normal aqui.

Uma atitude que ajuda a mulher a ter o parto normal é se informar. “É importante para evitar que a insegurança de saber quando realmente chegou a hora de ter o bebê, medo, aflição e ansiedade, expectativa da dor e do desconhecido possam levar a suposições e escolhas erradas. Ser orientada pelo obstetra sobre o ciclo de desenvolvimento do parto é muito importante. Saber quando é que aparecem as primeiras contrações e seu curso, no início indolores, irregulares e seguindo um fluxo de não mais que quatro contrações por hora. Se o número for maior, pode ser o indício de trabalho de parto. O trabalho de parto dura em média de 12 a 14 horas”, conta Jose Gabel.

Após o nascimento

Amamentação

A amamentação possui um papel muito importante para que o bebê tenha um desenvolvimento saudável. “O leite materno favorece um bom desenvolvimento/crescimento prevenindo a má nutrição, Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs), tais como, obesidade, diabetes, hipertensão, síndrome metabólica, e possui um importante papel na imunidade dos bebês, pois contém células de defesa e fatores anti-infecciosos capazes de proteger o organismo do recém-nascido, são mais resistentes a infecções, alergias e cólica”, explica Jose Gabel.

Além disso, o leite materno é fonte de proteínas, vitaminas e minerais, como cálcio, magnésio, potássio e sódio e tem gordura a DHA, que ajuda fortalecer o neurônio, melhorando a capacidade dos os impulsos nervosos. Uma pesquisa realizada com 3500 pessoas e publicada na revista científica The Lancet Global Health concluiu que os bebês que foram amamentados por mais tempo tiveram melhores desempenhos em testes de QI na vida adulta.

É importante que o aleitamento materno seja exclusivo até os seis meses de vida e continue até os dois anos de vida ou mais acompanhado de outros alimentos. “Crianças que recebem outros alimentos antes dos seis meses de idade, especialmente antes do terceiro mês, acumulam mais gordura corporal ao longo da vida, eleva o risco de problemas no coração e de acidente vascular cerebral, responsáveis por 30% das mortes no mundo”, alerta Jose Gabel.

O desmame precoce também é um problema. “Ele altera a composição corporal e reduz a sensibilidade ao hormônio leptina, que induz à saciedade e à puberdade, conforme estudos produzidos pela equipe do endocrinologista Egberto Gaspar de Moura, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro”, conta Jose Gabel.

Alimentação do bebê

A alimentação correta reduz o risco de desenvolver na idade adulta a obesidade e doenças cardiovasculares, conforme estudos conduzidos em cinco países em desenvolvimento (Brasil, África do Sul, Guatemala, Filipinas e Índia). Lembre-se que nessa fase do desenvolvimento, o corpo ainda se encontra em formação: cérebro ganha volume, os ossos se alongam, músculos se fortalecem. Ao receberem os nutrientes certos, eles irão se desenvolver de uma maneira muito melhor.

Além de suprir as necessidades nutricionais, a introdução da alimentação complementar aproxima progressivamente a criança aos hábitos alimentares de quem cuida dela e exige todo um esforço adaptativo aos sabores, cores, aromas e texturas. “A partir dos 6 meses, oferecer de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os dois anos de idade ou mais. Alimentos complementares como (cereais, tubérculos ou raízes, carnes, leguminosas, frutas e legumes) devem  ser oferecidos três vezes ao dia, se a criança receber leite materno, e cinco vezes ao dia, se estiver desmamada”, orienta Jose Gabel.

Comece oferecendo alimentos com consistência pastosa (papas /purês), e gradativamente aumente a sua consistência até chegar à alimentação da família. Estimule o consumo diário de frutas, verduras e legumes. Ofereça à criança alimentação variada, diferente e colorida.

 

Desenvolvimento do bebê

O desenvolvimento do bebê é intenso nos primeiros mil dias de vida. Para se ter uma ideia, o bebê cresce 15 centímetros no 1º semestre, 10 centímetros no 2º semestre, sendo que no final do 1º ano atinge aproximadamente 75 centímetros. No segundo ano de vida, o bebê cresce 10 centímetros e no terceiro ano de vida 10 centímetros. Aos 4 meses e meio/ 5 meses de vida o peso do bebê dobra, com um ano de vida triplica (10 quilos) e aos 2 anos quadruplica (12 quilos). “Os especialistas consideram este período, até os dois anos, crucial para a saúde física e mental do indivíduo”, observa Jose Gabel.

Para que o desenvolvimento físico ocorra de forma saudável é essencial que o bebê se alimente de forma correta. Já para que haja sucesso no desenvolvimento motor é preciso estimular o pequeno. “O bebê nasce com as áreas sensoriais, olfativas e auditivas desenvolvidas, e as habilidades cognitivas e motoras vão se desenvolvendo. Quanto mais estímulos a criança tiver, maior será o número de ligações entre os neurônios, aumentando a capacidade de aprendizado e levando o cérebro a fazer novas conexões associadas ao ambiente que convivem”, constata Jose Gabel.

As emoções do bebê

Os bebês são sensíveis às emoções desde muito cedo e dão sinais de suas necessidades emocionais através da expressão corporal, facial e choro. “Os bebês aprendem por imitação e observando o mundo dos adultos, espelham e se modelam sentimental e socialmente, sofrem influência do ambiente em que vivem, assim, no processo de desenvolvimento o contato com o outro é uma fonte excelente de estimulação e de aprendizagem das condutas sociais”, diz Jose Gabel.

A evolução das emoções é natural e progressiva, e de acordo com a maturação e desenvolvimento neurológico vai apresentando reflexos desse desenvolvimento. “Já a partir do primeiro mês demonstra seus sentimentos e necessidades através de expressões faciais e corporais, começa o sorriso social, chora quando está incomodado com dores, fome ou por querer atenção, aos 2 meses de idade compreende rotinas, gosta de sorrir e aprende a imitar”, afirma Jose Gabel.

As rotinas contribuem para a estabilidade emocional dando noção de previsibilidade sobre o que vai acontecer a seguir. “Aos 3 meses começa a comunicar intencionalmente, demonstra alegria ao ver pessoas conhecidas emitindo sons e sorrindo”, conta Jose Gabel.

Aos 5 meses. O bebê demonstra sentimentos de medo quando ouve barulhos altos ou inesperados, verbaliza, gesticula, chora, sorri e ri para comunicar, começa a estranhar pessoas e demonstrar ciúmes dos pais e vai evoluindo dia a dia, mês a mês utilizando todos os seus recursos adquiridos para se comunicar e relacionar. “Vai ficando mais independente e tem alguma individualidade, manifesta carinho com abraços e mimos principalmente pelos pais, reconhece o seu nome e desempenha algumas tarefas sozinho”, diz Jose Gabel.

A vacinação

Tomar todas as vacinas corretamente irá evitar que o bebê contraia uma série de doenças, tanto na infância quanto na vida adulta. Bebês vacinados também ajudam a evitar a erradicação de doenças em nosso país.

O vínculo com os pais

O bebê sofre influências da genética, da vida intrauterina, das experiências durante o nascimento, da amamentação e dos primeiros dias de vida extrauterina que afetam o vínculo. “Assim, o acolhimento e o amparo materno e de seus familiares ajudarão na superação das adversidades que enfrentarão em sua vida”, constata Jose Gabel.

As brincadeiras

É essencial que o bebê brinque ao longo dos seus dois anos de vida. “Brincar é muito importante para a criança em seu desenvolvimento, aprende sobre mundo em que vive e com o seu corpo utilizando e aperfeiçoando os seus sentidos, estimula o crescimento físico, social, emocional e cognitivo”, afirma Jose Gabel. Confira as melhores brincadeiras para os bebês aqui.

O estimulo à fala

Um ponto muito importante nos primeiros dois anos de vida do bebê é o estímulo à fala. “A comunicação e linguagem no desenvolvimento do bebê são fundamentais, pois através de choro, mimica, expressões corporais e gestos ele se comunica com o mundo, expressa os sentimentos”, observa Jose Gabel.

O choro é a primeira forma que o bebê usa para alertar a mãe quando está com fome, com sono ou dor, ou quando simplesmente quer estar com ela. Pouco a pouco se aprende a decodificar os diferentes tipos de choro. “Quando começa a balbuciar, dar gritinhos e emitir as primeiras vocalizações tem o início da etapa pré-linguística, vindo a seguir um período de monólogos, a repetição das vocalizações acompanhado de respostas gestuais expressando satisfação e agrado. Chamam a atenção balbucios mais intencionais e começam pronunciar mama-dada, entre outros. Com o decorrer do tempo passar a falar palavras mais comuns. Vai adquirindo a capacidade de imitar, mas ainda não tem a capacidade de associação da palavra com o significado”, afirma Jose Gabel.

E a medida que o bebê vai amadurecendo e sendo estimulado começa a compreender frases antes de articulá-las. “A partir dos 18 meses, o progresso da fala da criança se acelera muito. Já é capaz de vocalizar frases compostas, repete o que ouve”, diz Jose Gabel.

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