‘Perdi minha bebê com 41 semanas após ter recebido alto do hospital’

Por: Bruna Romanini



Foto: Arquivo pessoal

A mãe Guio Pereira fez um triste relato sobre a perda de sua filha Alice após sofrer violência e negligência médica

Tudo correu bem na gestação da mãe Guio Pereira, porém quando estava com 41 semanas ela começou a sentir contrações e foi para o Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Foi então que o caso de negligência médica, que resultou na morte de sua bebê Alice, começou. Veja a seguir o relato de Guio sobre como sua bebê saudável acabou falecendo devido à negligência médica:

“Vou relatar como foi a minha violência e negligência obstétrica.

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Comecei a ter contrações no dia 28/05/17. Nesse dia fui ate o HCPA( Hospital de Clinicas de Porto Alegre). Chegando lá, a residente verificou batimentos, estava com contrações 2 em 10   (fracas), fez toque sem dilatação.

Mandou vir pra casa.

Dia 02/06 tive consulta pré-natal. 41 semanas e a médica indicou indução de trabalho de parto.

Sai da consulta já sangrando pós toque. Ela disse que meu útero já estava amolecido e aberto, estava entrando em TP. No mesmo dia retornei ao HCPA, fui atendida por uma residente. Mais uma vez os procedimentos. Batimentos ok, contrações 3 em 10(moderadas), colocou especulo e disse: bastante sangramento. Percebi que ela iria me internar ou ao menos de deixar em observação. Até que entra outro residente na sala, mais uma vez, pega o espéculo, pega tipo uma pinça e coloca uma gaze na ponta e enfia. Olhou, olhou de novo pra gaze, sentou num banquinho e me diz: ‘dá uma tossidinha, por favor.’ Fiz o que pediu. Ele bate na minha perna e diz pronto, sangramento não é do útero, pode colocar a roupa e ir pra casa!

Eu olhei pra ele e disse: mas doutor o senhor vai me mandar pra casa eu tô com dor, com 41 semanas, sangrando com contrações de 3 em 3 min. Ele me olhou e disse:  ‘querida, pela 1ª eco você está com 40 semanas’. Ai expliquei que a 1ª eco, deu 7 semanas, e pela 2ª eco que foi a TN, o ecografista disse que estava errada, e que a que ele estava fazendo batia com meu DUM, e minha ginecologista obstetra do pré-natal preferiu seguir por ela. Que a data provável pro parto era 01/06, que eu estava com medo.

Ele me olhou e disse, contamos pela 1ª eco. E outra você está com contrações moderadas e são insignificantes pra dilatar, você nem dilatação tem.

Olhei pro meu marido e disse:  ‘então vamos pra outro hospital’.

Ele riu e disse: ‘querida  hospital nenhum irá te internar assim, pois pra internar tem que ter 4 centímetros de dilatação, sangue ou líquido escorrendo perna abaixo, não sentir o bebê mexer ou 41+6 é o que exige o Ministério da Saúde. É protocolo de todos hospitais, vá pra casa. Caso tenha alguns desses sintomas retorne’.

Voltei pra casa, fiquei mais 3 horas com muita dor, que não se intensificaram.

No outro dia acordei sem dores e assim foi ao longo da semana completamente sem dor. Até pensei que o médico realmente estava certo.

Quando foi dia 09/06 minha filha mexeu bastante pela manhã, até por volta das 14 horas quando parou.

Já eram 16 h e nada dela mexer. Fui ao hospital HCPA. E assim foi, cheguei por volta das 17 h, quando na triagem não conseguiram ouvir os batimentos e a enfermeira me levou pra sala da eco.

E sem dó, nem piedade a ecografista me olhou e disse: ‘Sem batimentos!’.

Naquele momento, olhei pra ela e disse: ‘como assim??? Estou com 41 semanas, minha filha já vai nascer, eu não posso ouvir isso, e agora o que vou dizer pro meu marido? Que não temos mais a nossa Alice, que foi tão planejada, tão sonhada. Fizemos tantos planos e agora acabou tudo??’

Eu vim aqui e vocês não me internaram, ou ao menos induzir meu parto como a minha médica pediu.

Liguei pro meu marido, aos prantos pedindo que ele fosse até o hospital. Enquanto isso a médica foi me explicando como seria o procedimento.

Comprimidos vaginais e depois ocitocina.

Quando meu marido chegou no hospital, ele se ajoelhou na minha frente e abraçou minha barriga e gritava: ‘Minha filha não, por favor filha’.

Foi o pior momento da minha vida, me senti um lixo, pois minha filha já estava morta dentro de mim. Me sentia culpada, por não ter a dor suficiente pros médicos.

Começaram a indução, 2 comprimidos às 21:20, com 2 cm de dilatação. Passei as primeiras 4 horas sem dor. 1:20 toque e 4 cm de dilatação, suspende comprimidos e vamos pro ocitocina.

E assim foi depois de 2 horas, toque e estava com 8 cm de dilatação, nesse momento muita dor, e a medica pediu que me aplicassem anestesia.

Logo após terminarem a aplicação, toque de novo e pediu que fizesse força. Fizemos isso por 3 vezes.

Toque de novo e dilatação completa, sala de parto.

E fomos, seria o momento mais triste, pois eu e meu marido conheceríamos nossa filha já sem vida.

O momento que mais aguardamos durante os 9 meses, seria o mais triste.

Já na maca, da sala de parto o médico me olha e disse: ‘vamos ter que fazer uma episiotomia bem grande, pois tua bebê é grande(nasceu com 3.300 e 51 cm) e sozinha tu não vai conseguir’. E assim foi 2 forças e veio minha Alice, meu anjo agora com asas, minha princesa.

Tão linda, tão sonhada e eu com a esperança de ouvir o chorinho, o que infelizmente o silêncio se rompeu apenas com o choro da equipe médica, meu e do meu marido.

Mas o choro principal se manteve em silêncio.

Começaram a me dar os pontos, e ela no meu colo, queria aproveitar ao máximo cada minutinho ao lado dela. Eu e meu marido abraçamos, beijamos, ele a embalou, cantou. Enfim chegou a hora de nos despedirmos.

Que sensação horrível entregar tua filha.

Fizemos necropsia e o resultado ficaria pronto dia 06/07.

Fomos então pegar o resultado, e a médica nos disse que não teve resultado. Eu disse como não teve?

Ela me explicou: ‘a bebê de vocês não tinha nenhuma má formação, nenhuma infecção, sorologias nada. Placenta normal, líquido normal, cordão sem alterações. Foi o acaso…. sim ela me disse foi o acaso’.

Acaso de não terem me internado, ela me respondeu todos os requisitos pra internação, e disse que não estava no dia 2 quando questionei ela. Disse que só internam com trabalho de parto ativo e não em pródomos.

‘Mas agora já sabemos, que tua próxima gestação não pode passar de 40 semanas’, disse a média.

O problema não é a próxima gestação, o problema é a vida da minha filha que se foi.

O nossos sonhos destruídos.

Eu pergunto équando será assim???

Vidas que se vão, e pra eles é só mais um.

Hoje minha Alice estaria com 5 meses, e nada trará ela de volta, vou viver eternamente com essa dor.

Deixo aqui meu relato para que não ocorra com mais nenhuma mãe, que nenhuma delas saia da maternidade sem seu filho. Pois pela minha filha vou lutar ate o fim”!

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