Gêmeos siameses partem dias após nascerem e o médico fala

Gêmeos siameses com a mãe durante o nascimento
Gêmeos siameses logo ao nascerem com a sua mãe. / Reprodução Arquivo Pessoal
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Os gêmeos siameses Marcos e Mateus não resistiram e acabaram partindo com poucos dias de vida. Um dos médicos responsáveis pelo caso, Dr. Zacharias Calil, explicou o que aconteceu e a complexidade deste caso.  

Os meninos nasceram no dia 6 de janeiro deste ano. Apesar de seus pais, Raylane Siqueira de Oliveira e Maycon Alex Rodrigues serem de Canarana, Mato Grosso, o nascimento aconteceu em Goiânia, Goiás. Isto porque o Hospital Estadual da Mulher Dr. Jurandir do Nascimento (HEMU), localizado em Goiânia, é um dos poucos do país especializado em casos como este. A mãe já havia feito o pré-natal neste hospital, após o diagnóstico das crianças na gestação. Os bebês nasceram com 34 semanas de gestação, cerca de oito meses.

Estes bebês eram um caso raro e um dos mais difíceis de gêmeos siameses. Eles eram isquiópagos o que significa que nasceram unidos pela região do quadril, mais especificamente o ísquio, que é um dos ossos da bacia. Nestes casos, os bebês acabam compartilhando parte da pelve e muitos órgãos da região abdominal e pélvica. “Da nossa especialidade é o mais complexo dos gêmeos siameses. Uma dificuldade muito grande na separação”, explicou o Dr. Zacharias Calil.

Gêmeos siameses passaram por procedimento um dia após nascer

O Dr. Zacharias Calil explicou que apenas 24 horas após o nascimento, os gêmeos siameses Mateus e Marcos precisaram passar por um procedimento. Ele começou explicando melhor como era a anatomia dos bebês. “Eles eram unidos pelo tórax, você vê aqui um coração e o outro coração, o abdômen e a bacia. E eles tinham três pernas. E aqui a gente vê que o fígado era único, e aqui é branco porque não tinham gases aqui, o que significa que eles nasceram com ânvs imperfurado e também não urinavam”.

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O médico continuou a explicação: “Essa aqui é a bexiga que ela tava muito distendida, cheia de urina. Então, nós aguardamos 24 horas para fazer o procedimento, que é uma urgência, você fazer uma colostomia para eles poderem evacuar e também fazer uma abertura na bexiga para poder eliminar a urina pela pele”.

Infelizmente, poucas horas após este procedimento, um dos gêmeos siameses, o pequeno Marcos, teve complicações e acabou partindo. “Foram pra UTI e ontem de manhã (7 de janeiro) ele( Marcos) começou a apresentar alterações do ponto de vista hemodinâmico, ou seja, ele não saturava bem, mesmo estando entub4do, estava com dr0gas chamadas vasoativas e apresentou três ou quatro paradas cardíacas irreversíveis”, explicou o Dr. Zacharias.

Ele explicou que apesar de Marcos ter falecid0, Mateus continuava vivo. “Mas o outro continuava vivo. Nós avaliamos os corações e o coração (do Marcos) não b4tia, parou mesmo. Mas o outro (Mateus) estava com o coração em atividade, b4tia forte. Ele acordado. Entub4do, mas com os olhos abertos. Isso me chamou muito a atenção”.

Gêmeos siameses passaram por separação de urgência

Após o faleciment0 do pequeno Marcos, os médicos não tiveram outra opção a não ser fazer uma cirurgia de separação de urgência dos gêmeos siameses. Infelizmente, este não era o plano dos médicos, já que uma cirurgia desta magnitude é recomendada quando os bebês têm mais de um ano de idade.

O Dr. Zacharias explicou: “Eu falei: olha não tem jeito, nós vamos ter que separar, porque eles dividem o mesmo sangue, o mesmo c0rpo, o mesmo fígado, tudo isso ai são fatores complicadores e essas t0xinas de quando você vai a óbit0, no caso passam imediatamente para o outro. Então, fizemos uma medida de tentar salvar pelo menos um”.

A cirurgia acabou sendo extremamente complexa: “Fizemos a cirurgia, conseguimos a separação, mas foi uma cirurgia muito complexa também. Porque é uma cirurgia que você faz, por exemplo, com um ano, um ano e meio de idade. Uma cirurgia que leva cerca de 10 horas. Nós conseguimos fazer em cinco horas, numa agilidade muito grande. Mas desceu para a UTI tudo, entrou no quadro de falência também, fez algumas paradas cardíacas e não conseguimos reverter”.

O pequeno Mateus acabou partindo no dia 8 de janeiro. “A cirurgia em si foi praticamente estável, mas teve intercorrências, de você tem que fazer um grande volume de s4ngue, de líquidos, são pequenininhos e você não consegue aquele suporte que normalmente a gente consegue em uma criança maior. Mas os próprios anestesistas que estavam lá nos avisavam, tá complicando, tá complicando, e a gente já estava da cirurgia para o fim, então quando conseguimos terminar, mas é muito complexo”.

O médico ressaltou a gravidade do caso destes gêmeos siameses. “As pessoas às vezes não têm ideia da gravidade, da complexidade, que isso exige. Da própria experiência da equipe porque já fizemos estes procedimentos cirúrgicos, já fizemos 26 separações, com essa. Andou até num certo tempo, mas as complicações existem. A própria cirurgia em si causa uma reação inflamatória no organismo. É uma reação inflamatória altíssima né? Isso ai reflete em todos os órgãos do paciente”.

O médico ainda falou sobre o fato dos bebês compartilharem muitos órgãos. “Se não fosse a quantidade de compartilhamentos que eles tinham, talvez tivesse um sucesso maior, mas é muita anatomia, muita fisiologia também envolvida. Quer dizer, tudo isso complica muito”.

Ele concluiu dizendo: “Realmente, a cirurgia na idade de um ano era ideal. Mas a gente não imaginava que um deles iria a óbit0. E logicamente o outro iria a óbit0 em algumas horas (se não fosse separado). Como eu percebi naquele momento que ele estava vivo, não tem outra chance, ou é tudo ou nada. Esse é nosso papel como médico, escolher salvar a vida, infelizmente não depende só da gente”.

Raio-x mostra como os gêmeos siameses estavam unidos
Raio-x dos gêmeos siameses mostra como eles eram unidos. / Reprodução Arquivo Pessoal
Gêmeos siameses durante o nascimento
O nascimento dos gêmeos siameses. / Reprodução Arquivo Pessoal
A mãe com os gêmeos siameses ao nascerem
A mãe Raylane Siqueira com os gêmeos siameses recém-nascidos. / Reprodução Arquivo Pessoal
Primeiro procedimento dos bebês
Os gêmeos siameses passando pelo primeiro procedimento. / Reprodução Arquivo Pessoal

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